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Gazeta de Alagoas, 09 Julho de 2000
Construindo um gigante de cimento e aço
Foram usados nas obras cerca de 250 mil sacos de cimento, 3.500 toneladas de aço, milhares de metros de tábuas

VINÍCIUS MAIA NOBRE *
Instalado o nosso próprio laboratório, tratamos também de preparar no escritório técnico de uma sala para que pudéssemos ministrar aulas aos alunos do 5º ano do Curso de Engenharia Civil da UFAL. Foram três turmas de concluintes que tiveram a oportunidade de acompanhar as mais diversas etapas de uma obra do porte do estádio, tanto recebendo ensinamentos teóricos como, principalmente, na parte prática.
Orgulho-me de não ter interrompido as minhas aulas como professor universitário e sinto quanto foram compreensíveis os responsáveis do Curso de Engenharia e a Superintendência da FAPE permitindo que eu fizesse do canteiro de obras do Trapichão uma verdadeira Universidade.
Em 15 de março de 1968 foi concretada a primeira sapata. Estava dada a saída do grande partida que teria sua conclusão em 25 de outubro de 1970. Daquele dia até o da inauguração, muitos dados e fatos teriam que ser fornecidos e contados. Reservo-me àqueles que julgo mais interessantes e que a minha memória permite.
250 mil sacos de cimento
Foram consumidos cerca de 250 mil sacos de cimento de todas as procedências, tanto nacionais como estrangeiros (alguns importados da Rússia), todos com a devida avaliação e aprovação do nosso próprio laboratório. Na infra e super estrutura com volume de concreto da ordem de 30 mil metros cúbicos, foram empregadas 3500 toneladas de aços especiais inclusive aqueles usados em colunas protendidas (CA-150 ). Foram moldados e rompidos mais de 2000 corpos de prova cilíndricos de concreto, maioria dos quais, após os ensaios foram usados em fechamentos de determinados vãos e na execução de alguns arrimos.
Milhares de metros de tábua e outros tantos de estroncas e linhas foram adquiridas e, ressalta-se o cuidado que tínhamos no reaproveitamento. Um carpinteiro , em tom de gozação, quando insistíamos no uso de tábuas já empregadas em outras partes do estádio, disse certa vez: “Doutor, um dias desses tomei um susto enorme quando fui pegar umas tábuas e ouvi uma reclamação, mas logo eu que já estive no setor 1, 3 , 4 e já tinha passado pela fundação do 2 ? Tenha pena de mim, não me serre mais...”
Adotamos o registro diário dos eventos acontecidos na obra. Como auxiliar técnico do escritório, dublê de locutor ( tínhamos um sistema de mandar aviso para grupos de trabalhadores ou encarregados através de um alto-falante), desenhista, maquetista e escriturário, o estudante de engenharia Norival Braga, conhecido mais por Babí, foi de grande valia. Foram preenchidos cinco volumosos livros pautados com todas as ocorrências da obra e inclusive com as impressões deixadas pelas personalidades que nos visitaram. Os livros, segundo fui informado, desapareceram anos depois, o que é de se lamentar. Tanta fidelidade ao que aconteceu durante a construção poderia estar servindo para fazer a história mais completa.
Visitantes
Centenas de visitantes lá acorreram. Um comparecia diariamente , Walter Toledo o chamávamos de “Fiscal”. Nilo Floriano Peixoto era outro habituê. Muitos eram acompanhados pelo nosso Relações Públicas, José Paulino Sarmento, que instruído por nós, fornecia os detalhes e dados que interessavam aos curiosos. Outros, face às posições, eram acompanhados ora por Napoleão , ora pela equipe de engenheiros.
Lembro-me de muitos dos que lá foram: Luiz Cavalcante, Governador Lamenha Filho (várias vezes ), Senador Arnon de Mello, deputados estaduais tanto da então ARENA como do MDB; Vereadores por Maceió, Conselheiros do Tribunal de Contas, Prefeitos de Maceió Divaldo Suruagy e Henrique Equelman. Este último após uma boa conversa, autorizou o calçamento da segunda pista da Av. Siqueira Campos.
A lista contemplou ainda Dom Adelmo Machado, Prof. Afrânio Lages, João Havelange, Presidente da FIFA (esteve por duas vezes visitando as obras), Enaldo Cravo Peixoto (engenheiro alagoano e Secretário de Obras da Guanabara), Camilo Calazans (Presidente do Banco do Nordeste), Rubens Costa (Superintendente da Sudene), Nilo Coelho (Governador de Pernambuco), Geraldo Magalhães (Prefeito de Recife), Núncio Apostólico Dom Umberto Mozzoni. Ministros Macedo Soares (da Industria e Comércio), Gama e Silva (da Justiça); Nestor Jost, Presidente do Banco do Brasil; uma delegação da Escola Superior de Guerra e tantos outros que deixaram suas impressões do que viram escrevendo naqueles livros perdidos.
Divergências
Entre os que trabalharam no Trapichão, para não fugir à regra, tinham suas discordâncias e, às vezes mesmo, raivas não resolvidas.
Era o caso do Gerôncio e o Paulo Lopes. Certo dia o Gerôncio (alcunhado por Paulo de “Jacaré”) foi dar início a colocação da forma de uma coluna e voltou correndo para me informar que a mesma estava com o centro de sua fundação afastado de exatamente um metro. Ele sabia que o erro teria partido da marcação do Paulo, que a sapata já concretada e com mais de 30 metros cúbicos não poderia ser desmanchada facilmente. O prejuízo seria enorme e claro que “Sr Napoleão vai saber e vai ter que botar o Paulo prá fora”.
Com calma, respondi que todos nós estamos sujeitos a cometer erros e que aquele não seria o último e tão pouco seria irremediável. Tratei de estudar a situação e resolvi simplesmente com a execução de uma viga de equilíbrio. Ninguém soube do ocorrido a não ser o próprio Paulo, Gerôncio (que me atendeu no silêncio) e ao calculista Prof. Jermann quando lhe expliquei a solução para aproveitamento da sapata. Ainda hoje está lá a tal coluna no lugar dela, “certinha”, descentrada de sua sapata e sem causar nenhum problema.
A lição serviu: o próprio Gerôncio, antes mesmo de executarmos a laje da marquise deu por falta de uma cabo de protensão que deveria ter surgido desde a fundação com cinco pisos abaixo. Teve a coragem de confessar o erro e em tempo corrigi, mais uma vez, uma falha que também era nossa. Fiz reagir as lajes que influenciavam a coluna “órfã” de uma cabo, aumentando a sua reação de compressão e consequentemente, reduzindo a níveis aceitáveis a tração proveniente da reação da marquise.
Elasticidade
Nunca foi tão útil os conhecimentos de elasticidade. Por descaso da firma fornecedora das bainhas dos cabos de protensão , tiveram elas de ser envoltas em plásticos a cada trecho que fossemos concretar as colunas externas dos sete setores centrais do estádio.
Das fundações até as marquises o tempo decorrido foi mais de 18 meses. O ar marinho da região, oxidou as bainhas metálicas e o plástico, por mais cuidado que adotamos, permitiu a passagem do concreto, com evidente aprisionamento do cabo na massa da coluna.
Na oportunidade de fazermos a protensão, o esforço no macaco deveria corresponder a um determinado alongamento no aço, o que não se deu em três dos quase 40 cabos. Conseguimos, mais uma vez, determinar a posição em que estavam presos, abrimos cuidadosamente “janelas” para retirarmos o concreto e voltamos a realizar com sucesso o tracionamento daqueles cabos.
Ainda em 1968, discutindo o projeto com o sucessor de João Khair, seu sobrinho e também arquiteto Marcos Khair, a FAPE autorizou a alteração do projeto incluindo a chamada arquibancada reta , ligada à ferradura por passagens de pedestres e com vestiários no subsolo.
Estávamos convencidos de que, com essa providência, a capacidade iria para 50 mil espectadores. Mas, pouco a pouco, fomos alterando outras partes a exemplo dos três setores centrais do estádio, onde para cada dois degraus de arquibancada foram transformados em um, a fim de permitir a colocação de cadeiras especiais, como também a criação de uma exagerada Tribuna de Honra, local onde as autoridades iriam assistir aos jogos com grande privilégio.
Desde o princípio da construção, a jovem e assídua equipe de engenheiros, cada um cumprindo com suas obrigações específicas, muito unida , era conhecedora das variáveis que envolviam os recursos financeiros.
Concluídas as principais fundações, em reunião presidida por Napoleão, discutiu-se e foi aprovada, a estratégia de atacarmos de imediato pela superestrutura dos cinco setores centrais , contrariando o princípio pelo qual deveríamos iniciar pelos setores mais simples buscando maior experiência.
A razão básica era tornar a obra irreversível e o desafio de enfrentar a execução do segundo maior vão livre do Brasil.

16 Julho
O estádio começa a tomar sua forma

A estrutura de concreto armado começa a ser despida dos madeirames de proteção e uma nova fase é iniciada

Parte III : No artigo anterior, publicado em 9/7/2000, tratamos da construção. Da grande partida e sua estratégia. A irreversibilidade da obra e da unidade da equipe técnica.
Vinícius Maia nobre
Assim, chegamos a concretar primeiramente a marquise do setor central ( setor 1 ) com 26 m de balanço, só superado pela do Maracanã que possui 30 m. Cercamos dos maiores cuidados a exemplo do escoramento constituído de 55 torres de madeira, sendo a primeira fileira com mais de 35 m de altura. Essas torres eram treliçadas com quatro apoios formando um quadrado de 1 (um) metro de lado, colocados sobre cunhas especiais também de madeira e estaiadas entre si face à grande altura e ventos. Frise-se que, na época, para usarmos peças metálicas tubulares como escoramento ficaria muito mais oneroso do que o projetado. Chegamos a solicitar orçamento às poucas firmas existentes no sul a exemplo da Mills. Usamos nas juntas de dilatação entre setores, borrachas Fungenband O-22 e deixamos entre as vigas vizinhas, nas mesmas juntas, tubos em cobre para posterior colocação de bastões do mesmo material, como equalizadores de deformações.
O concreto, “marca registrada” da FAPE, teve sua dosagem estudada convenientemente e ensaiado previamente pelo nosso Laboratório. Obtivemos uma resistência média característica de 48 MPa, ou como era o usual, 480 kgf/cm². Tínhamos quase certeza de ficarmos com deformações bem menores do que as calculadas teoricamente. Ainda tivemos o especial cuidado de deixar, junto aos tubos de queda de águas pluviais, uma caixa de passagem a fim de evitar prováveis entupimentos. Verificamos que um simples entupimento de um desses tubos , a laje da marquise funcionaria como um grande reservatório de água de chuva, em condições de sobrecarregar em mais de 1 tf/m², podendo causar dessa forma, sérios acidentes estruturais.
Desescoramento
Realizamos as protensões previstas nas colunas externas do setor central. Finalmente chegou o dia do desescoramento. Havia entre nós um nervosismo natural. Jermann veio acompanhar e assisti-lo. Coloquei os enegenheirandos em forma como assistentes privilegiados, em local de segurança, na pista de atletismo já existente. Escolhemos os 44 operários mais afeitos e treinados para retirar as cunhas dos apoios das 11 torres iniciais (das extremidades do balanço e as mais altas ). Ao comando único (“vá”, “vá”... ) os operários batiam nas cunhas que tinham 5 cm de altura correspondente à flecha imediata, naquela situação da marquise. Instalamos na cobertura um nível apoiado no ponto mais rígido da estrutura que era o apoio central. Na extremidade da marquise descia um cabo fino de aço e já próximo ao piso e preso ao mesmo, estava um corpo de prova mergulhado num tonel com água. Todas essas providências possibilitariam medirmos as deformações tanto instantâneas como ao longo do tempo.
Descem as onze torres praticamente iguais. Ouvem-se vários estalidos na madeira seca e presas umas às outras. Um dos operários não contem o medo, larga a marreta e sai correndo pista afora. Ouve-se a primeira e estrepitosa vaia no Trapichão e temos também o primeiro campeão dos 50 m rasos. Aliviados com o sucesso da mais difícil operação, continuamos a retirar o escoramento, medições de flechas, até recebermos, ao final, o abraço emocionado de reconhecimento do Prof. Jermann. Como havíamos previsto, um ano após, a flecha continuava bem menor. Ao realizarmos as mesmas operações com as marquises dos demais setores e colocados os equalizadores, observamos a beleza da estrutura da coberta bem executada, a despeito da variação em altura e vãos dos diversos setores da grande arquibancada.
Fape
A obra prosseguia, sempre a depender dos bingos e se diga que até casas construímos no Trapiche, para distribuição e incentivo aos festivais. Estávamos sob constante ameaça de paralisá-la. O problema de recursos era cruciante. Visita-nos o Ministro da Justiça, aquele do AI-5, que, mesmo observando e tendo conhecimento de como a obra era seriamente conduzida pelas mãos de Napoleão, autorizou apenas mais três bingos. A FAPE tinha adquirido muitos materiais e equipamentos com o aval particular de seu Superintendente ,que se viu de uma hora para outra numa situação muito embaraçosa e com muitos riscos. Entram em cena Segismundo Cerqueira e Carlos Breda que expõem a Murilo Mendes, nosso grande incentivador e titular da Secretaria da Fazenda, a situação vexamitosa por que passa Napoleão Barbosa. Murilo toma a iniciativa e convence o Governador Lamenha Filho da necessidade do Estado carrear recursos para conclusão de mais uma grande obra de seu governo.
Lamenha, um dos filhos mais ilustre de São Luiz do Quitunde, senhor de engenho do Coronha, que havia abandonado seus cursos no Marista para cuidar da família órfã de seu pai, homem sério, auto didata, afeito às dificuldades, cioso das necessidades por que passava a população de Alagoas, com um excelente trabalho na educação, saúde, habitação, segurança e no de transportes com um ousado plano de pavimentação de rodovias, se vê agora, como Governador de um Estado pobre, na decisão como ele mesmo me disse , repetindo uma frase atribuída a Nero, “panem et circensem “. Deve ter sido muito difícil a tomada de decisão, mas não só Nero, mas muitos outros imperadores romanos deram ao povo para sua distração, pão e circo. Como argumento, sabia-se que a obra estava muito adiantada e que seu custo final não ultrapassaria a casa dos 12 milhões de dólares, o que realmente aconteceu. A partir da decisão do Governador Lamenha Filho em injetar recursos para conclusão das obras, reconhecemos que o Trapichão tornar-se-ia, em breve, uma realidade.
Engenheiros
Procurando conhecer a experiência de outros, Napoleão acompanhado de dois engenheiros da equipe vai visitar o Beira-Rio que já havia sido inaugurado. Convida-me para acompanhar , recuso alegando muitos motivos, mas na verdade não fui com medo da viagem de avião. Dizem que Napoleão levou de presente para um dos construtores e presidente do Internacional, Eng.º Ruy Tedesco, um pente de tartaruga. Parece-me que não chegou a ofertá-lo pois o Tedesco era completamente careca. Volta o pessoal da viagem totalmente influenciado e com a idéia, de que o nosso Trapichão teria capacidade bem maior, face resposta dada a uma pergunta sobre a do Beira-Rio. “A capacidade é muito relativa. Estão vendo aquela arquibancada , do outro lado ? Pois bem , num jogo, parecia cheia de torcedores. Choveu de repente e todo mundo correu para debaixo daquela marquise ( apontava para o único trecho do estádio que tinha uma marquise de pequena extensão )”. Essa impressão levou a muitos acreditarem que o nosso era também “elástico”.
Muitos serviços foram também cuidadosamente executados a exemplo das instalações hidro-sanitárias, instalações elétricas, vestiários, a iluminação do próprio campo sem esquecer a perfeita drenagem. A seu favor diga-se que estudamos pormenorizadamente o assunto, desde a adoção do nível de referência para todo o estádio. Sabíamos a cota do campo, o nível do lençol freático, o quanto de reaterro e sob ele os quase 3500 m de tubos próprios para a drenagem. Qualquer que fosse a precipitação pluviométrica, em poucos minutos, suas águas seriam conduzidas pelos drenos para os fossos ao redor do campo.O gramado foi plantado em dois meses após um período de experiências em canteiros especialmente executados. A grama foi importada, a mesma do Beira-Rio ( “Bermuda Green”) . Quase uma centena de operários foi empregada nos serviços de peneiramento, mistura e preparo do solo. Mais de uma tonelada de grama foi utilizada e dava gosto observar como os canhões aspessores, irrigando, iam dando vida àquele gramado, considerado como um dos melhores do país do futebol.

23 Julho
O Trapichão e suas últimas fases de construção
Muitas histórias pessoais se mesclam na caminhada das obras de edificação do maior estádio de futebol de Alagoas
VINÍCIUS MAIA NOBRE *

(Parte IV : Retratamos, em artigo publicado no último domingo, dia 16 de julho, o desafio da marquise. A alocação de recursos orçamentários. As especificações do estádio. O campo de jogo, sua drenagem)
Nem tudo foi técnica e seriedade. Houve momentos pitorescos, inusitados mesmos, e um especialmente lamentável. Foi triste saber que de noite, após uma concretagem, ao se deslocar por uma rampa de madeira de acesso a um dos elevadores de serviço ( guincho), um dos operários perdeu o controle de sua “muletinha” ( carro com rodas de pneu próprio para transporte de concreto ) , soltando-se e despencou de muito alto sobre a cabeça do Osmundo, provocando sua morte. Foi com muito pesar que todos lamentamos a vida de um auxiliar íntegro, competente e trabalhador. A FAPE deu total cobertura à sua família.
Tínhamos um auxiliar de laboratório chamado Marquês Tavares, inteligente, que tanto era trabalhador como brincalhão. Nos momentos de folga do seu serviço , indócil, saía a procura de algo para brincar ou mesmo ajudar a outros, como aconteceu, muitas vezes. Gerôncio sempre fiscalizava seus passos. Certa vez, Marquês levou o teodolito do serviço de topografia, armou-o sobre o tripé numa das lajes de piso que dava para a Siqueira Campos. Lá, ele visava a sala das enfermeiras da maternidade em frente ao Trapichão, para, como se diz na gíria, dar uma “brechada” nas moças. Disseram ao Gerôncio que partiu célere para flagrar, mas ao mesmo tempo também informaram o Marquês da intenção do nosso auxiliar. Bem depressa , Marquês guardou o instrumento em sua caixa, desarmou o tripé e segurando-os, apressadamente, tomou direção da primeira grande rampa de acesso . Como Gerôncio subia pelo mesmo caminho, o inevitável aconteceu: os dois de cabeça baixa deram uma grande trombada. Foi perdoado sob juramento de não repetir.
Mistura do Chapisco
Certa vez adquirimos cal virgem em Palmeira dos Índios, de boa qualidade, para empregarmos na mistura do chapisco. Aplicávamos em muitas partes do estádio como solução esteticamente aceitável em vários revestimentos. Teríamos de “queimá-la”, ou seja hidrata-la transformando-a em hidróxido de cálcio. Nesse tipo de operação juntávamos água à cal em quantidade suficiente à sua reação, dando como conseqüência o desprendimento de gás carbônico. Era hora de almoço e lá estava o Marquês olhando com outros operários a reação se fazendo dentro de um tonel. Inadvertidamente, joga uma lata com água derramando-se sobre os curiosos a mistura super aquecida. Queimam-se dois que são levados para medicação no Pronto Socorro e inclusive o próprio. Demite-se o Marquês imediatamente. Chega à noite lá em casa, ele e sua jovem esposa, com barriga de oito meses, querendo me convencer de que não poderia ser pai desempregado. Sou tomado de pena, mas, àquela altura, somente Napoleão poderia perdoá-lo. Lembro-me de Dona Carmelita e digo ao Marquês que ele vá com a esposa pedir a intercessão da mulher de Napoleão. Deu certo. Dona Carmelita condoeu-se com a situação e o Marquês foi até o fim da obra, sem antes desfilar com o polegar decepado de um carpinteiro embrulhado num pedaço de papel de saco de cimento.
Era um dia de inverno do ano de 1970. Muita chuva e alguns pedreiros estavam aplicando cerâmica nas paredes dos sanitários. Um deles foi prender uma “gambiarra” com lâmpadas acesas para melhor trabalhar. Tentou bater um prego na parede e tomou um tremendo choque. Ouvi do escritório os gritos para desligamento da chave geral pois o tal pedreiro estava se debatendo. Corre o Martins e dá os primeiros socorros puxando a língua do acidentado, que estava enroscada, com um alicate. Mais uma lição de tratamento de choque com alicate. Após, ida ao velho Pronto Socorro, descansou. Noutro dia, lá estava ele, todo lampeiro, pronto para trabalhar.Escoramento
Recebemos a visita de um grupo de engenheiros da CEAL e incorporado a ele, estava Itamar Barros, colega muito conhecido pelo seu bom humor. Sobem todos para olhar a marquise do setor dois, pronta para retirar o escoramento. Passam por meio do madeiramento e eis que vejo Itamar com uma careca bem reluzente. Sua peruca ficara pendurada numa das estroncas. Rimo-nos com a situação, pois muitos não conheciam essa particularidade do Itamar.
Muitas outras histórias aconteceram. De uma delas fui protagonista. Estava de férias e fui ao Rio, de carro, com minha família. Deveria me encontrar com Napoleão no escritório do Marcos Khair. Como havia me antecipado, sabendo do endereço residencial do Marcos e curioso por conhecer sua casa antiga, à Rua Almirante Alexandrino, em Santa Teresa , fui até lá para bisbilhotar. Parei o carro num largo que existia em frente a casa e verificando que ninguém me atendia pela porta principal, dirigi-me à de serviço e nela fui atendido por uma espantada empregada, informando-me que todos haviam saído. Ao me afastar ( a frente da casa estava no alinhamento da calçada) dei mais uma de curioso, pendurando-me no peitoril da janela, e, olhando pelo vidro, tomei um grande susto: tinha um grupo de homens e mulheres, todos sentados no assoalho de madeira da sala. Os homens barbudos, de cabelos grandes, típicos dos jovens contestadores da época, numa conversa da qual nada percebi.
Convidados
Tratei de sair para não ser visto e tomei o caminho de volta. Dois dias depois fomos convidados pelo Marcos (que não estava no tal grupo ) para um jantar em sua residência. A jovem senhora do Marcos, muito bonita, era filha de família influente no mundo social e político do Rio. Fomos, como dizem os cronistas, fidalgamente recebidos e de lá saímos encantados com todos e inclusive com a casa que nessa noite, conhecemos em detalhe. Pois bem, logo depois, soube-se do seqüestro do embaixador americano Charles Erbkle, que a senhora do Marcos estava envolvida e que tinha fugido logo depois para Paris. Conversando com alguns amigos, disseram-me que corri sério perigo , pois o “aparelho” podia estar sendo vigiado à distância. O Khair confirmou tudo depois, aqui, em Maceió, tendo sido surpreendido pela posição da esposa, estando totalmente inocente.
Além de incentivador, Murilo Mendes pelos dotes que possui, foi o nosso “frasista” oficial. Todas as placas colocadas no estádio, no período pré inauguração, foram de sua lavra. Uma delas, deve ainda estar presa em uma de suas paredes, onde a palavra majestoso (referindo-se ao Trapichão) está grafada com a letra g . Todos nós passamos batidos com o erro cometido quando de sua fundição, em Aracajú, menos ele : “Napoleão mande consertar logo, na mesma fundição” foi o seu pedido, mas, responde nosso Superintendente, com sua característica simplicidade , “Como, se a FAPE ainda ainda não pagou o que deve ao rapaz ? “
Trapichão
Ainda quando o nosso estádio estava no nascedouro, após um jogo recreio entre uma equipe formada por jornalistas que faziam a crônica esportiva e a de construção, num campo improvisado, onde hoje se ergue o Ginásio Presidente Fernando Collor, conjeturando o nome pelo qual se deveria chamar o estádio, um deles exclamou, “Trapichão”! Era uma alusão ao nome do bairro, no aumentativo, muito em moda, como o Batistão ( Lourival Batista, em Aracajú), Mineirão e outros. Estava realizado o batismo: a partir de então, o nome se espalhou e pegou.
Através do Conselho da FAPE, o nome oficial ao apelidado Trapichão, deveria ser “Estádio Estadual Lamenha Filho”, numa clara e merecida homenagem àquele que em momento tão difícil viabilizou sua execução. Não sei se Lamenha gostou da homenagem ou tivesse receio pela corruptela que dariam ao seu nome , mas a verdade é que, comemorando a conquista do tri campeonato pela seleção brasileira de futebol, eufórico, baixou o decreto trocando seu nome pelo de “Rei Pelé”.
Trinta anos após, continuo discordando da homenagem ao Pelé. Merecido deveria ser a mudança do nome do estádio do Santos (Vila Belmiro) ou mesmo trocando o nome de sua terra natal ( Três Corações, MG) pelo seu. Deu tanta importância ao seu nome no nosso Trapichão que aqui só veio uma vez, no dia da inauguração. Seu clube, o Santos, cobrou a mais alta taxa entre todos os que participaram dos jogos inaugurais e ameaçou não jogar, caso não recebesse em espécie e antecipadamente, a cota acordada. Muito mais justo seria o nome daquele que deu tudo de si para realizar o sonho de muitos alagoanos, se expondo às maledicências dos seus opositores como avalizando operações financeiras em horas incertas para sua cobertura: Napoleão Barbosa.
(*) É ENGENHEIRO CIVIL E FOI RESPONSÁVEL PELO ACOMPANHAMENTO TÉCNICO DE TODA A OBRA DO TRAPICHÃO.


30 Julho
Enfim, o sonho em campo
VINÍCIUS MAIA NOBRE (*)

(Parte V : Registrou, nosso último artigo, publicado em 23 de julho de 2000, o dia-a-dia dos trabalhos na construção. A união e solidariedade entre trabalhadores, engenheiros e administradores. A decisão do nome do estádio)
Início do segundo semestre de 1970. Todos os que fazíamos a FAPE, desde os que labutavam na construção, funcionários em geral e principalmente a cúpula dirigente, estávamos ansiosos pela proximidade da inauguração do majestoso Trapichão. O nome do estádio já era oficial. A data inaugural seria 25 de outubro. Demarches estavam sendo encetadas para abrilhantar as festividades. A grande e famosa churrascaria já havia sido inaugurada, porém faltava muita coisa a ser executada, como grades separadoras de setores, pinturas, calçamento externo, conclusão do salão nobre, acabamentos nas cabinas de rádio e televisão, checagem da iluminação, placar luminoso, bilheterias, colocação das catracas (“borboletas”) e muito mais.
Desfile escolar
A cada dia que se passava mais aumentava a nossa ansiedade. Princípio de setembro, chega ao estádio o governador Lamenha Filho acompanhado de seu secretário de Educação. Foi colher à nossa opinião e decidir sobre a proposta de José de Melo Gomes para ali ser realizado o desfile escolar comemorativo a nossa emancipação política. Claro estava o desejo dos que faziam a Secretaria em promover um “avant première” , a meu ver totalmente descabido, mesmo porque tínhamos receio do que viesse a acontecer com o estádio em fase de acabamentos finais, recebendo público ávido em conhecê-lo. Não houve consenso. Mas, manda quem pode e obedece quem tem juízo: o Governador ordenou que adotássemos providências para o desfile do 16 de setembro.
Logo após a saída do governador, reuniu-se toda a equipe de engenheiros e auxiliares com o Napoleão. Foi detalhadamente estudada a situação criada com o futuro desfile dos colégios de Maceió e alguns do interior. Sugeri muitas providências, tanto quanto a segurança como dos acessos ao estádio, e os demais colegas também o fizeram, tudo no sentido de acatar a decisão governamental. Napoleão, antes de terminar a reunião, convida-me para coordenar o dispositivo aprovado. Informo-lhe da minha decisão em não aceitar tal missão, por discordar daquele capricho, embora não me furtasse de continuar a implementar as providências aprovadas.
No dia 16 de setembro, encontrava-me em Recife e, de volta, cerca das 18 horas, ouço pelo rádio do carro ( perto de Vila Messias ), o Tojal fornecendo o resultado do número de espectadores que presenciaram o desfile em mais de 93000. Fiquei sem acreditar no que ouvia e raciocinei que algo de errado havia acontecido. Por infelicidade minha, cheguei acometido de uma forte gripe que me deixou acamado por mais de dois dias. Li, em casa, os jornais estampando as fotos das arquibancadas e notei que havia espaços na chamada arquibancada reta. Desconfiado, recalculei todas as áreas disponíveis inclusive aquelas de circulação. O número de cadeiras era imutável e cheguei à conclusão, de que não poderia passar de 50000 o total de espectadores; daí, ter iniciado pesquisa para saber o que aconteceu naquele dia.
Estádio
Soube que muitos dos encarregados das borboletas havia deixado passar pessoas que desejando escolher outros locais do estádio, voltaram pelas mesmas, registrando, novamente, sua passagem, ao contrário do recomendado, que deveriam abrir o portão ao lado. Houve também outro fato negativo na apuração : acrescentaram 10 % sobre o número até então tido como certo do registrado pelas catracas porque haviam derrubado um portão de ferro e ingressado muitas pessoas sem qualquer controle. Além disso, havia aquela famosa resposta do Ruy Tedesco que capacidade era relativa, ou seja, dependia como se acomodassem, esquecendo o princípio físico que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço no mesmo instante.
Finalmente, está mais próximo o dia da inauguração. Foi na sexta-feira, 23, à noite, que nos reunimos para os últimos detalhes. Iria coordenar todo o esquema de entrada dos torcedores. Antes de sairmos, assinamos o “bolo” da renda. Fui o segundo a assinar , num total de 10 presentes. Fiz meu palpite multiplicando o preço médio do ingresso ( Cr$7,00 ) pelo capacidade calculada de 50000 espectadores, ou seja, uma renda de Cr$350.000,00. Um menos otimista, Marcos Cotrim, palpitou em Cr$400.000,00, talvez acreditando um pouco no seu antigo professor, os demais acima da casa dos 440 mil cruzeiros, chegando ao máximo de 640 mil. Claro que esse detalhe se justifica porque está ainda em meu poder a lista com os nomes e valores.
Santos x Seleção Alagoana
Convidamos Walter Guimarães e Toroca para assumirem o comando nos vestiários do Santos e da seleção alagoana respectivamente. Armo um plano com Walter para conseguir a camisa do Pelé, e ele, muito amigo, aceitou a incumbência. Chega finalmente o domingo 25 de outubro de 1970. De véspera são recebidos a delegação do Santos, o juiz Armando Marques e convidados especiais. Desde a manhã o trabalho foi intenso no Trapichão. Missa de ação de graças, discursos do representante da equipe técnica, eng.º Marcos Mesquita, do superintendente Napoleão Barbosa e do Governador Lamenha.
Torcedores
Bem cedo, começam a chegar os torcedores. Abrimos os portões ao meio-dia. Foi aquele corre-corre. Recebia de meus auxiliares e colegas as mais diferentes reclamações e a todos estava na obrigação de atender, a exemplo de duplicidade de ingresso nas cadeiras numeradas e até acomodar um casal de Recife na cabina de uma rádio. Tinha gente até pelas circulações. Ao terminar o primeiro tempo estava com meu mapa concluído, acusando um pouco mais de 53000 espectadores. Foi o maior número que o Trapichão registrou nesses 30 anos de existência . Inacreditável a lotação do estádio ! Sou insistentemente solicitado por Marcello, que ficou numa cabina destinada a uma futura TV e que de lá comandava o som para todo o estádio e o placar luminoso a fornecer a renda. Não o fiz em respeito a todos, pois bem conhecia e conheço o comportamento do público: deveria ser um uníssono “Ladrão, ladrão, cadê o meu dinheiro” !
Só fui assistir ao jogo no segundo tempo, deixando de ver o primeiro gol e o do Pelé. Soube um dia após, que a pedido do diretor da “Cidade de Menores Humberto Mendes”, major Mata, teria sido prometida a camisa 10 do Santos, mas meu esquema funcionou. Lembro-me que ele saiu antes de terminar o jogo, Walter desce para o vestiário e cobrou o acerto que fizera com o roupeiro do Santos, o ex atacante Toninho. De lá comunica-se comigo pelo interfone: “Brasa, já estou com a camisa do Pelé!”.
pós o apito final do juiz Armando Marques e a saída dos convidados, detalho a Napoleão o resultado do “borderaux”, recebo o valor total da aposta e vou para casa sossegado, com a sensação do dever cumprido. O major Mata reclamou do chefe da delegação do Santos e recebeu a camisa que Pelé entrou em campo ( vestira uma outra para o segundo tempo). O major me procurou, em seguida, para trocarmos a camisa pois queria aquela menos suada. A Cidade dos Menores deveria leiloá-la, não sei se o fizeram. Soube, pelo Lautherney Perdigão, quando doei a camisa do Pelé e de outros astros da seleção que aqui jogaram pelos seus clubes ao Museu de Esportes, que nunca ouviu falar dessa outra .
Não poderia concluir esse meu relato sobre a construção do Trapichão, sem antes comentar as reformas lá executadas, no governo Geraldo Bulhões. Não vimos o projeto e nenhum de nós que lá trabalhou foi chamado a opinar. A execução da obra foi contratada com a firma Queiroz Galvão, que, segundo informações colhidas com alguns engenheiros da firma, na véspera da chamada reinauguração, havia faturado mais de dez milhões de dólares.

(*) é engenheiro civil e foi responsável pelo acompanhamento técnico de toda a obra do Trapichão.

Quarta-feira, 25 de outubro de 2000
Estádio Rei Pelé comemora hoje 30 anos
O mais moderno estádio da América Latina festeja data sem promover um grande espetáculo futebolístico para os alagoanos

O estádio Rei Pelé, hoje, é o centro das atenções de uma quarta-feira sem futebol em nossa capital. “O mais moderno”, “o mais bonito da América Latina”, “orgulho do povo alagoano”, foram algumas denominações criadas por narradores esportivos ao longo dos 30 anos de sua existência. Inaugurado em 25 de outubro de 1970, o “Trapichão”, como é mais conhecido, se tornou palco das grandes decisões e rivalidades do nosso futebol, de eventos nacionais do futebol e de outras modalidades esportivas como o atletismo e até o voleibol.
A partir de hoje o estádio estará mais moderno, oferecendo mais conforto para seus eventos com a inauguração do auditório Lauthenay Perdigão, uma justa homenagem ao ex-jogador, jornalista e radialista e que na condição de cronista esportivo possui o maior acervo da história do futebol alagoano, sendo sua história mostrada ao público no Museu de Esportes Dida, um dos mais modernos do mundo, instalado no estádio.
Nas comemorações de hoje a Fundação Alagoana de Promoção Esportiva, FAPE, criada em 09 de outubro de 1964, merece um destaque especial. Ao longo dos seus 36 anos de existência passou a ser um dos locais mais procurados pelos atletas e clubes de federações amadoras e profissionais, beneficiando com os recursos do governo federal, através do INDESP. Graças a isso, o Estado tem conquistado grandes títulos esportivos em outros Estados e no exterior, incentivando os jovens para a prática de diversas modalidades. Também será apresentada hoje a sua nova logomarca, atendendo aos padrões da modernidade e mostrando, ainda, seu leque de ações.
Segundo o superintendente Eurico Beltrão, no atual governo foi possível colocar em atividade promover eventos na capital e no Interior, reconquistando a credibilidade junto ao governo federal e principalmente aos atletas alagoanos. Esta semana, por exemplo, os funcionários já começaram a utilizar o trator, marca John Deere, para o corte da grama, hoje utilizado somente nos estádios do Maracanã e Beira Rio, este último em Porto Alegre, substituindo a máquina que vinha sendo utilizada desde a inauguração do Estádio.
“Estamos hoje com uma equipe que abriu um leque de ações, utilizando a criatividade para melhorar as condições para a prática do esporte”, sintetizou Eurico Beltrão, rendendo elogios à sua equipe. Destaca o esforço de funcionários e prestadores de serviços para que o estádio funcione como uma cidade. “Possuindo hoje diversas federações, museu do esporte, igrejas, auditórios, campo de futebol, pista para competições de atletismo, restaurante e alojamentos”, destaca Eurico Beltrão.
Com atividades divididas, o Estádio funciona em clima de transparência, administrado por técnicos e atletas como João Messias Neto e Eduardo Canuto, responsáveis pelos trabalhos de manutenção do estádio e realização de eventos. Uma das grandes conquistas deste ano foi assegurar para o Estado a implantação de uma fábrica de material esportivo nos presídios Baldomero Cavalcanti e São Leonardo. “Usamos a criatividade e a boa vontade do nosso pessoal”, a firma Eurico, acreditando em inúmeras realizações dirigindo o órgão.
Justa homenagem
A homenagem a ser prestada às 17 horas de hoje ao jornalista Lauthenay Perdigão, nome do auditório da FAPE, é uma das mais justas. Não será a primeira, mas das mais significativas pela afinidade do cronista esportivo e ex-atleta com o Estádio Rei Pelé. Antes mesmo de sua inauguração, fez parte da comissão instituída pela FAPE para o acompanhamento à sua construção. “Somente depois de se observar alguns locais no Tabuleiro do Martins e até no mercado, ali onde hoje funciona o Mercado da Produção, foi que a escolha ficou para o bairro do Trapiche da Barra”, lembra.
Criador de programas esportivos no rádio como “Arquivos Implacáveis”, “Esporte em Grande Estilo”, e de colunas nos principais jornais de Maceió, Lauthenay Perdigão construiu família acompanhando e colecionando fatos que mostra a história do esporte alagoano de uma maneira geral. Ao lado do repórter fotográfico José Ronaldo, outra expressiva personalidade do jornalista alagoano, documentou a construção do Estádio Rei Pelé.

30 Anos de Trapichão
* JOSÉ SEBASTIÃO BASTOS

O despertar do dia 25 de outubro de 1970, nesta cidade de Maceió, ocorreu com o badalar dos sinos das igrejas anunciando que naquele dia seria inaugurado o Estádio Rei Pelé, mais conhecido como Trapichão. Tratava-se, à época, do mais belo templo do futebol do Brasil, numa arquitetura das mais arrojadas, - Projeto João Khair – entregue ao povo alagoano, de modo especial, ao amante do esporte bretão, justamente, após 4 meses da conquista pelo Brasil do Tricampeonato Mundial de Futebol, feito magnífico alcançado na cidade do México. No ato inaugural, presentes as mais altas autoridades do Estado, à frente os governadores Lamenha Filho e Luís Cavalcante, presidente João Havelange, dirigente da outrora Confederação Brasileira de Desportos, além de desportistas de vários Estados do País.
Há uma história memorável acerca da construção do velho e sempre novo Estádio, novo pela decisão corajosa do governador Geraldo Bulhões, em reformá-lo em agosto de 1993, cuja narração foi objeto de uma série de artigos publicados recentemente pelo engenheiro civil Vinícius Maia Nobre, dizendo das características da monumental obra, com citações as mais diversas, e passagem até divertida desde o início até o término da construção.
Lauthenay Perdigão, em seu livro Arquivos Implacáveis e em folhetim que era editado pela Funted - e causa uma grande falta – bem como a Revista Rei Pelé, coordenada pelo saudoso jornalista Nilton de Oliveira - fazem referência ao palpitante assunto.
Dentre os fatos curiosos surgidos na fase inicial do Trapichão, lembro-me da escolha da área, hoje ocupada pelo estádio, que a mesma foi sugerida e aprovada pelo Major Luís por uma comissão designada através de Portaria do governador à época, composta pelo articulista, desportista Lauthenay Perdigão, Antônio Araújo, Nilo Floriano Peixoto, Abelardo Marinho e Alcides Correia, os três últimos falecidos. O terreno em referência constituía-se de duas vacarias, pertencente a duas famílias, a qual foi desapropriado para fins de utilidade pública pelo Estado. Executada a desapropriação, o governador Luís Cavalcante convocou o empresário Napoleão Barbosa, que, de imediato, fez criar a Fundação Alagoana de Promoção Esportiva (Fape) – sendo seu superintendente, tendo como diretores Segismundo Cerqueira, Osvaldo Braga e Murilo Mendes. Inicialmente sem recursos do tesouro do Estado, promoveu-se a realização de festivais, os chamados bingos, de cuja renda se tocava a obra.
Quando da gestão da Interventoria do general Batista Tubino, houve uma paralisação dos bingos, alegando-se contravenção, e, em conseqüência, a construção interrompida. Contudo, assumindo Lamenha Filho o governo do Estado, as autoridades federais liberavam os festivais, reiniciando-se os trabalhos do Estádio até sua conclusão. Justificava-se ainda o apressamento do término do Rei Pelé, pelo fato de não se tornar uma obra inacabada, como soi acontecer por esse Brasil afora. Assinale-se que o nosso Trapichão, esse stadium, o mais badalado de todo o País, monumento grandioso, digno de admiração pela sua estrutura e beleza, destina-se a perpetuar a recordação dos grandes acontecimentos, e pelo seu valor passa à posteridade. Antes da sua inauguração oficial, houve um monumental desfile escolar no dia 16 de setembro de 1970 em homenagem à Emancipação Política de Alagoas.
E para finalizar, destacando esse acontecimento marcante para o nosso Estado, quero reproduzir trecho do discurso do saudoso governador Lamenha Filho, inaugurando o Estádio Rei Pelé, no dia 25 de setembro de 1970: “Entrego este Estádio ao povo para que aqui possa expandir os seus sentimentos, abrir as comportas da alma para alívio das pressões da vida cotidiana. Estádio é competição entre o passado e o futuro”.
*É VICE-PRESIDENTE DA CBF

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