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2003 - Parece que a
novela chegou ao fim. O Serrano ingressou com um pedido de renovação da licença na
disputa do Campeonato Estadual da Segunda Divisão - a série B-1 - junto à Federação
de Futebol do Rio de Janeiro e dificilmente irá participar de qualquer competição de
futebol profissional, encerrando assim um impasse que já durava semanas. Ontem, o
presidente do clube, Nilson Guimarães Farah, fez um comunicado à imprensa de Petrópolis
sobre sua decisão, alegando que, em virtude do rebaixamento à Terceira Divisão, não
há a menor chance de brigar pelo título da categoria.
Segundo Nilson Farah, não havia a menor chance de disputar a série A-2, um torneio ao
estilo mata-mata que classificaria os dois melhores para a A-1, já que o rebaixamento do
Serrano, por parte da Federação de Futebol do Rio de Janeiro, foi um ato
"injusto" e que traria sérios prejuízos à imagem do azul e branco. " Eu
falei pessoalmente com Eduardo Viana (este presidente da Federação de Futebol do Rio)
que o Serrano não disputaria a Terceira Divisão. Ele tentou me convencer do contrário,
mas não aceitei", declarou o dirigente. O time caiu para Terceirona porque a
Federação entendeu que não houve comunicado em 2002 de um licenciamento da entidade,
mas mesmo tendo provado o contrário foi mantido na categoria mais baixa do
profissionalismo do Rio.
Ontem, Augusto Vieira - o porta-voz de um grupo de empresários ligados à alimentação
que queria investir na equipe de futebol profissional do Serrano - bem que tentou na
Federação de Futebol do Rio reverter a situação, mas não teve sucesso em sua
empreitada. Como já era previsto, Augusto afirmou que o grupo não tem interesse em
montar uma equipe para a disputa da série A-2. "Não há a menor chance de montarmos
uma equipe para a A-2. Isso já foi comunicado ao presidente Farah", explicou ele,
que pode assumir a supervisão de futebol do Entrerriense, este da série A-11.
Este ano, dirigentes do Serrano foram novamente surpreendidos por
decisões estranhas da Ferj. O departamento técnico comunicou à presidência da entidade
que o clube não teria comunicado, no ano passado, que pediu licença da entidade e que,
portanto, estava rebaixado. Mas o ex-presidente Fernando Ferreira da Silva provou o
contrário esta semana e, apesar disso, o azul e branco sofreu a punição. Certamente,
enquanto Eduardo Viana permanecer no comando da Federação, provavelmente o Serrano terá
poucas chances de obter sucesso em seus pedidos.
2002- O pedido de licença já era esperado. Afinal
de contas, desde que assumiu o comando do clube, em julho de 2001, o presidente Fernando
Ferreira da Silva não conseguiu nenhuma parceria ou patrocínio para o futebol
profissional. Até mesmo as divisões amadoras - que lideram o segundo turno dos
campeonatos municipais de escolinha e mirim - estão vivendo às mínguas para pagar as
taxas de arbitragem de suas partidas. Tudo isso, segundo o cartola, porque a
administração anterior deixou muitas dívidas e isso inviabilizou qualquer projeto.
Este é o segundo pedido de licença do Serrano em 23 anos de
profissionalismo no clube. Por razões muito parecidas, em 1990 a então diretoria
ingressou com pedido de licença da Ferj e só retornou no ano seguinte, com o empresário
Plínio Leite. Naquela ocasião, o presidente era Carlos Gonçalves.
H - O Serrano é um clube decidido a lutar com
todas as suas forças para se manter vivo. Mesmo diante de uma crise que, na opinião de
seu próprio presidente o deixa perto do estado de insolvência, o azul e branco sabe que
é o passado que o fortifica e o ajuda a se manter vivo em Petrópolis. Campeão estadual
por duas vezes, o clube foi fundado no dia 29 de junho de 1915 e aos poucos se tornou o
mais popular do município.
No dia em que a cidade festejava a data de São Pedro, um grupo de dirigentes se reuniram
num campo de futebol no Terra Santa, no Valparaíso, onde decidiram fundar o Serrano
Futebol Clube. Mas a sua sede iria se transferir, dois anos depois, para a rua Visconde de
Itaboraí, também no Valparaíso, ocupando o lugar do então extinto Esporte Petrópolis.
Em 1945, decidiu então abandonar esta sede e seus dirigentes adquiriram um espaço maior
na rua Madre Francisca Pia, onde está até hoje. Só que houve um jogo de despedida da
antiga sede, em que o Serrano derrotou o Rio Branco, por 3 a 1.
O sucesso do Serrano no futebol, na realidade, começou três anos após a sua fundação.
O clube foi o primeiro campeão oficial da cidade, de acordo com o relato feito pelo
escritor Gabriel Fróes, em seu livro Esporte em Petrópolis, publicado em 1953. O clube
conquistaria o tricampeonato e começava a despertar a inveja dos demais adversários. A
série de títulos foi interrompida em 1921, quando então o Internacional, numa decisão
contra o Cascatinha, ganhara seu primeiro campeonato na categoria de adultos.
Mas o Serrano não se restringiu apenas ao futebol. O clube já teve uma das mais fortes
equipes de hóquei do país, sediando importantes duelos, como acontecera na década de
70, quando recebeu a seleção de Portugal. Foi campeão também no basquete, sendo que o
primeiro título veio em 1932; foi bicampeão petropolitano de tênis de mesa (1950/1951)
e em vários esportes brilhou intensamente. No futebol, porém, fez história de verdade,
principalmente depois que ingressou no profissionalismo, em 1979, por intermédio da
administração de Carlos Gonçalves. A partir dali, um capítulo novo começou a ser
contado.
Considerado um dos emergentes do futebol do Rio de Janeiro, o Serrano misturava bom
futebol com a paixão de sua torcida. Adversários temiam jogar no estádio Atílio
Marotti e tinham a sua razão de ser, afinal de contas, com uma equipe com jogadores como
Jorge Demolidor, Átila, Israel, Índio, Milton - sendo que este viria, mais tarde,
integrar a seleção brasileira olímpica de 1988 - e o goleiro Acácio, que foi reserva
na Copa do Mundo de 1990, era necessário ter cautela. O Flamengo, em 1981, experimentou o
gosto da derrota com o gol antológico de Anapolina e que eliminou todas as suas chances
de conquistar o tetracampeonato estadual.
Abril 1980 Chega ao Serrano mais um atleta em busca
de um lugar no elenco profissional. Seu nome é Elimar. Depois de passar por vários
testes, é aprovado por Pinheiro. O treinador gosta da versatilidade do jogador, mas não
consegue decorar seu nome. A solução encontrada é chamá-lo de Anapolina, o clube
goiano de onde Elimar saíra. Era batizado no estádio Atílio Marotti o anti-herói que
marcaria seu nome na história do futebol, não por sua técnica e habilidade, mas por
tirar de seu clube de coração (Flamengo) a chance de conquistar o inédito
tetracampeonato estadual.
A trajetória de Anapolina começa em Cotegipe, distrito de Matias Barbosa (MG). Elimar é
o caçula dos quatro filhos de dona Mulata, e o único homem. Ganha do pai o primeiro par
de chuteiras aos oito anos de idade. Desde então, vive brigas homéricas com a mãe, que
não consegue tirá-lo dos campos de várzea nem mesmo para o almoço e a janta. Elimar
continua jogando bola em Matias Barbosa e decide se tornar jogador profissional. Os
primeiros passos seriam dados no Sport, de Juiz de Fora.
A sorte do menino Elimar começa a mudar numa pelada. Por acaso, um dirigente do Botafogo
passava pela fazenda onde acontecia o jogo e começa a assisti-la. Encantado com a
voluntariedade do menino, decide levá-lo para treinar nos juniores do alvinegro. Feito o
convite no domingo, Elimar chegaria ao Botafogo numa terça-feira.
Em seu primeiro treino pelo alvinegro, o jovem de Cotegipe parece intimidado. Depois do
coletivo, Sebastião Leônidas (o técnico dos juniores do Botafogo) pergunta ao
responsável pela descoberta de Elimar: "-Onde foi que você arrumou isso?!"
Elimar ouviu, e passou dias remoendo aquelas palavras. Treinando em período integral e
sem folgas, ganhou a confiança do treinador e foi procurado por um empresário. Empolgado
com as promessas de que ganharia Cr$ 7 mil por mês (uma fortuna naqueles dias), assinou o
contrato sem lê-lo. Dias depois, quando passaria a profissional, descobriu que o contrato
que assinara daria ao empresário direitos absurdos, como metade do valor de seus
salários e 30% de suas luvas.
Depois do golpe, Elimar queria desistir do futebol. Antes de deixar o Botafogo, foi
procurado por um empresário do futebol goiano, que oferecia (os mesmos) salários de Cr$
7 mil para que ele jogasse no Rio Verde. E o jogador seguiu escondido para o centro-oeste
sem que o "empresário" soubesse.
Do Rio Verde, Elimar saiu e rodou por outros clubes, destacando-se o União de
Rondonópolis (MT), e o Anapolina, clube que depois lhe emprestaria o nome. A aventura na
região acaba em abril de 1980, quando ele vem para Petrópolis ao encontro de uma
namorada. E essa mesma menina que tem a idéia de levá-lo para o Serrano.
Aprovado por Pinheiro, Elimar (a partir de agora, Anapolina) estréia num amistoso contra
o Goytacaz. Sua atuação é apagada, mas o Serrano vence por um a zero. Aquela seria a
primeira das trinta e cinco partidas que Anapolina disputaria com a camisa do Serrano. E
nestes jogos, ele atuou nas mais distintas posições: ponta-esquerda, centroavante,
ponta-de-lança, cabeça-de-área, ponta-direita... Um autêntico curinga. E os gols foram
poucos: três. Dois em amistosos (seleção do Qatar e Bangu) e apenas um em partidas
oficiais. E contra quem?
Contra o Flamengo. O time vinha de um tricampeonato (78, 79 e 79 especial), era o atual
campeão brasileiro e tinha Zico, Titã, Adílio, Leandro, Júnior... Vários craques, uma
equipe de técnica refinada e futebol incontestável. Depois de perder o primeiro turno
para o Fluminense, o time precisava conquistar o segundo turno. E para chegar à final,
seria necessário vencer em Petrópolis. O Serrano já estava sob o comando de Luiz Carlos
Quintanilha, ex-técnico do América. Naquele campeonato, o Serrano já havia conseguido
vencer Botafogo, América, Bangu, e tinha vendido caro as derrotas para Fluminense e
Vasco.
O time tinha no gol uma promessa: Acácio, revelado pelo Rio Branco de Campos (e, que
futuramente, disputaria a Copa de 1990 pela seleção Brasileira). Uma defesa forte, onde
se destacava o lateral-direito Paulo Verdun (que jogaria mais tarde pelo Botafogo). No
meio-campo, Israel (vice-campeão brasileiro pelo Bangu em 85), Moreno e Wellington, o
responsável pela histórica vitória sobre o Vasco em 79. No ataque, craques como
Gilberto, Luiz Carlos, Átila é o ponta-esquerda Bernardo. Este, o principal jogador da
equipe no primeiro turno, foi vendido para o Murcia da Espanha.
Com a saída de Bernardo, Oswaldo seria o titular da ponta-esquerda. Mas Anapolina, a
terceira opção para a posição, mostrou mais disposição nos treinos e foi escalado
para enfrentar o Flamengo. O técnico Luiz Carlos Quintanilha decidiu tirar Átila, que
entraria na ponta-direita, e colocar o lateral Humberto com a incumbência de marcar
Júnior, o ponto de partida das jogadas do Flamengo. Era o primeiro passo para que a zebra
se concretizasse.
E no dia 19 de novembro de 80, uma quarta-feira, "São Pedro" se encarregou do
resto. Com a chuva torrencial que caiu à tarde, o gramado estava impraticável à noite.
O grande prejudicado seria o Flamengo, time de maior toque de bola. E a torcida também
fez a sua parte. Foram colocados à venda quinze mil ingressos. Seis deles foram
inutilizados, e os 14.994 restantes foram comprados, num recorde que permanece até os
dias atuais.
Aloísio Felisberto da Silva trilaria o apito pouco depois das nove da noite. E a zebra
que seria testemunhada por quase quinze mil pessoas estava só começando. Rapidamente, o
Serrano começou a imprimir seu ritmo, tendo as primeiras chances de gol. Aos dezenove
minutos de jogo, Anapolina toma a bola de Zico no meio-campo e passa a bola para Humberto.
O lateral dá a bola ao centroavante Luiz Carlos. O atacante tenta o chute para o gol; a
bola resvala em Júnior e tira os zagueiros do Flamengo do lance e Anapolina bate para o
gol, sem chances para Raul Plassman.
A torcida explode sem acreditar no que vê. A festa toma conta dos torcedores. Eles estão
não só nas arquibancadas, mas também no morro, atrás do placar, nas casas vizinhas ao
Estádio Atílio Maroti. E a festa continua até o final da partida, graças à atuação
inesquecível de Acácio, que salvou o time nas poucas oportunidades que o Flamengo teve
até o apito final. Anapolina escrevia seu nome na história. Mesmo sendo torcedor do
Flamengo, fã de Dida e Paulo Henrique, era ele o responsável pelo fim do sonho do tetra
rubro-negro.
Junto ao fracasso, vieram as gozações. O muro da Gávea amanheceu pichado com os
dizeres: TETRANAPOLINA, misturando o sonho do título inédito com o nome do carrasco que
acabara com a ilusão do tetra. O Vasco venceu o segundo turno e decidiu o título com o
Fluminense. O tricolor levou a melhor, ganhando na final por um a zero, gol de Edinho numa
cobrança de falta.
Depois do gol sobre o Flamengo, Anapolina fez apenas mais uma partida defendendo o
Serrano: um empate contra o Americano, em Campos. O anti-herói não fez grande partida,
sendo substituído por Ricardo Batata. Seria a sua última partida como profissional.
Tinha apenas vinte e sete anos, e trocou os gramados por um bar no Alto da Serra. Pediu
reversão de categoria e passou a jogar como amador. Primeiro defendeu o Petropolitano,
mas por pressão dos fregueses de seu bar, passou a jogar no Internacional.
O final de seu casamento apressou a volta para seu estado de origem: Minas Gerais. Apesar
de nunca ter apertado um único parafuso, conseguiu emprego numa oficina mecânica em Juiz
de Fora. Foi nessa mesma cidade que casou-se novamente, e defendeu o Tupynambás como
amador. Após quinze anos como mecânico, decidiu voltar para Matias Barbosa, onde hoje
transporta leite das fazendas da região para usinas de beneficiamento. E não se separou
de seu amor maior: a bola. Todos os domingos, pela manhã, o velho Anapolina (chamado
pelos amigos de Cerqueirinha, diminutivo de seu sobrenome) pode ser encontrado no campo do
Matiense. Coincidentemente, vestindo camisa azul, a cor do Vets, o time de veteranos que
defende.
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